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Detalhes:
Coleção Antropologia Social

Brochura
16 x 23 cm
240pp
R$ 46,00

Data de Lançamento:
2/7/2010

1ª edição

ISBN:
978-85-378-0257-1

Prefácio:
Gilberto Velho


Outras áreas: Administração
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Nas redes do sexo
Os bastidores do pornô brasileiro
Entrevista: María Elvira Díaz-Benítez

O mundo da produção de filmes pornô é fechado e de difícil acesso para quem não é do meio. Como foi conseguir realizar essa pesquisa?
O processo de pesquisa e de me inserir nessa rede passou por várias etapas. A primeira consistiu em fazer uma lista das produtoras brasileiras e começar a assistir uma enorme quantidade de seus filmes. Isso me permitiu conhecer nomes de diretores, ir reconhecendo os rostos das pessoas do elenco e ir tendo alguns olhares mais exatos sobre estilos, performances e títulos. Também foi o momento em que comecei a escrever para o endereço das produtoras, que aparecia nas capas dos filmes, apresentando-me e explicando sobre minha intenção de pesquisar o universo da produção de pornô.
Não foi fácil me inserir, pois nunca recebi resposta direta das produtoras, e quando me respondiam, logo que escrevia na janela "fale conosco" de seus sites, geralmente me respondiam que eles não tinham autorização para liberar minha participação.
Em meio a todas essas tentativas, comecei a assistir filmes pornô visitando os "cinemões" do centro da cidade, olhando para os rituais de interação que ocorriam dentro deles e para o efeito dos filmes nos consumidores. Confirmei que esses eram espaços primordialmente masculinos e que esse investimento, mesmo sendo muito valioso, daria origem a outro tipo de pesquisa diferente daquela que eu desejava, que era entender a organização social do universo de produção desses filmes e não especificamente sua recepção.
Então, abri um perfil na página de relacionamentos Orkut, e a partir dali comecei a participar de diferentes comunidades de pornografia, algumas das quais faziam convocatórias de elenco ou tinham fóruns de discussão sobre o desempenho das atrizes. No Orkut tive melhor sorte, pude falar com aspirantes a ator, ou com pessoas que tinham participado muito eventualmente em algum filme ou que tinham maior conhecimento sobre o mercado. No entanto, os atores e atrizes que tinham seu próprio perfil nunca responderam minhas mensagens e as poucas pessoas que se apresentavam como produtores que me responderam, realizavam filmagens gay e me disseram que a participação de uma mulher, em um set de filmagem de rapazes, poderia atrapalhar seus desempenhos e ser constrangedor.
Nesse meio tempo conheci um diretor de filmes no Rio de Janeiro, que me explicou claramente como ele efetuava o recrutamento de elenco e me deu a conhecer nomes de lugares nessa cidade, associados ao mercado do sexo, que passei a visitar para ter uma primeira noção do modo como a indústria sexual se conecta entre si.
Um milagre aconteceu seis ou oito messes depois, quando consegui falar pessoalmente com Rita Cadillac, ali começou outra grande etapa da pesquisa. Ela me concedeu uma entrevista em sua casa em São Paulo e me deu os telefones de alguns dos principais diretores do país. Nessa mesma semana, Kim, produtor e agenciador, convidou-me ao lançamento do filme de outro reconhecido ator. Dali pra frente, consegui acompanhar as filmagens e as etapas de produção, ficar horas nos sets entendendo como é que esse trabalho é feito, conhecer o pessoal atrás das câmeras e suas trajetórias, ficar amiga de algumas pessoas do meio que passaram a me convidar a almoços ou churrascos em suas casas, conhecer mais de perto as garotas, rapazes e travestis do elenco dos filmes.

Quanto tempo durou a pesquisa? E como foi definir esse recorte?
A pesquisa de observação participante, como nós, antropólogos, chamamos o exercício de acompanhar, observar, estar ali, durou de setembro de 2006, até dezembro de 2007. A isso somam-se os oito messes anteriores que pesquisei por meios virtuais e assistindo filmes, como expliquei anteriormente. Em 2008, me concentrei na escrita do texto, mas viajei duas vezes para São Paulo com o fim de fazer novas entrevistas. Também durante esse ano continuei navegando pelos sites das produtoras e assistindo alguns dos filmes que iam saindo no mercado. Em todo esse tempo mantive comunicação com pessoas da rede, via MSN.
O recorte se deu de maneira espontânea: comecei pesquisando no Rio de Janeiro, mas rapidamente compreendi que a indústria pornô em São Paulo é maior, mais densa e organizada. Então, foi quando decidi que precisava morar nessa cidade e me concentrar nessa rede local, a maior da América Latina. Me concentrei em cinco produtoras que realizavam filmes de corte hétero, gay e travesti, mas as pessoas circulam entre diversas empresas, motivos pelo qual acredito que consegui ter uma visão geral do universo de produção em vídeo.

Onde se concentram as produções e quantos filmes mais ou menos são realizados a cada ano?
As produções não se concentram em um lugar específico, como foi na época das pornochanchadas na chamada Boca do Lixo. Atualmente, as produtoras e distribuidoras tem suas sedes em diversos bairros de São Paulo, e os filmes são feitos também em lugares variados: motéis, sítios, apartamentos ou estúdios. Dependendo do tipo de filme são alugadas boates ou outro tipo de cenários.
É muito difícil determinar quantos filmes são realizados a cada ano. Provavelmente a ABEME (Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico), possa determinar isso com maior exatidão. Tem produtoras que realizam 10 títulos por mês, outras que realizam cinco, algumas fazem somente dois ou um. Isso depende da capacidade econômica da empresa e de sua inserção no mercado. Muitas dessas mesmas empresas realizam filmes ou cenas para Internet. Além disso, a variedade de tipos e estilos de filmes produzidos no Brasil é grande; além de hétero, gay e travesti, são realizados também filmes de fetiche e bizarros, muitos dos quais são feitos por empresas estrangeiras em São Paulo e outras cidades, com elenco local.

Você se inclui no texto, contando como foi lidar com seus próprios preconceitos e situações inesperadas. Esses foram os momentos mais difíceis?
Não, não foram momentos tão difíceis assim. Sem dúvida algumas coisas me causaram estranheza, como o episódio em que eu narro que um ator me concedeu entrevista pouco antes de filmar sua cena, em que estava com seu pênis ereto e precisava masturbar-se. Não é fácil para um antropólogo, em um primeiro momento, enfrentar uma entrevista nessas circunstâncias, mas os antropólogos acompanham coisas bem mais complexas: contextos de violência, ou especialistas em religião que entrevistam pessoas em estado de transe.
Na verdade, uma das coisas que mais interessantes foi constatar que as pessoas das redes do sexo não são tão diferentes assim. É muito maior o estigma em relação a esse mundo do que as "verdadeiras transgressões" que ele produz. Deparei-me com pessoas que se, por um lado, realizam práticas sexuais que identificamos como dissidentes ou inclusive "perversas", por outro lado, são pais, mães ou filhos exemplares, no sentido comum da palavra, e levam suas vidas privadas em meio a diversas convenções morais.

Quantas entrevistas foram realizadas? Você acredita que, assim, conseguiu montar um panorama completo, desenhando as diferentes funções e as muitas vidas por trás das produções?
Realizei 56 entrevistas em total. Algumas, obviamente, foram muito mais profundas do que outras. Entrevistei atrizes, atores, recrutadores de elenco, diretores, produtores, maquiadores, assistentes, câmeras, técnicos de edição, e alguns distribuidores. Talvez tenha faltado enfatizar nos consumidores, mas esse será um próximo investimento, e sobre isso os estudos de mercado têm nos oferecido muitas dicas.
As entrevistas me permitiram conhecer trajetórias de vida dentro e fora do pornô, assim como os projetos e desejos das pessoas. Mas para entender a organização social da produção de pornô foi fundamental minha proximidade em seus lugares de trabalho, em suas moradias e em outros contextos associados ao mercado do sexo, como bares, privês, termas, boates, etc.

Acredita que o mercado no Brasil é mais estigmatizado do que no exterior?
Acredito que a indústria pornô brasileira é mais desorganizada e justamente por isso mais desconhecida e, provavelmente por isso, mas sujeita a estigmas.
Enquanto nos Estados Unidos, por exemplo, as atrizes viram porn stars, no Brasil até as atrizes mais destacadas enfrentam etapas longas em que são menos chamadas para filmar. Lá os cachês são superiores e atuar no pornô pode se configurar como um grande projeto econômico. Aqui, são poucos os atores ou atrizes que conseguem se sustentar somente do pornô. A estrutura da indústria mesma não dá lugar à configuração de carreiras metodicamente estabelecidas, embora existam algumas exceções. Faltam premiações, por exemplo, que possam aumentar o status das pessoas, e não somente do elenco, mas de diretores e demais pessoas que trabalham atrás das câmeras. Algumas produções são feitas com baixíssimos orçamentos e isso também, de algum modo, prejudica o mercado. Tudo isto sem contar com a emergência da Internet na configuração do consumo de pornô e a investida voraz da pirataria.



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> A autora explica os resultados de sua pesquisa em entrevista para o site do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (Clam).

> Saiba mais sobre María Elvira Díaz-Benítez.

> Maria Elvira Diaz Benitez é pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu/Unicamp. Conheça.

> Assista à palestra com a autora; a atriz e dançarina Rita Cadillac; o diretor de filmes pornô M. Maxe e o especialista em pornografia Valter José Maria Filho.

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> > "As entrevistas me permitiram conhecer trajetórias de vida dentro e fora do pornô, assim como os projetos e desejos das pessoas". Leia entrevista com a autora.

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