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Blog da editora

Ser mãe hoje – para a nova geração

14 de Maio de 2017

*Por Lulli Milman e Julia Milman, autoras de A vida com crianças

 Ainda que mãe seja um cargo vitalício e todas as que o ocupam mereçam atenção e solidariedade, esse texto foi escrito exclusivamente para as recém-chegadas ou há poucos anos na função.

Hoje em dia, as transformações na política e na economia e, consequentemente, nas relações e nos papéis ocupados por cada um na organização familiar, são de tal forma marcantes que deixam as mães contemporâneas, e também pais e cuidadores em geral, mais do que nunca em um estado de desamparo.

Antes a família era vertical, hierárquica, os pais ocupavam um lugar privilegiado. Hoje, há o olhar para a criança, que passa a ser um sujeito de direitos. Se por um lado essa transformação é extremamente positiva, por outro, os pais têm tido dificuldade em ocupar o lugar de sustentação e cuidado que lhes compete. Um dos fatores de influência para tal dificuldade é que em um universo dominado pelo consumo todos são igualados como mercadoria. Os ideais se deslocaram do respeito à tradição, ao conhecido, aos mais velhos, para a busca desesperada do mais novo, do mais perfeito, do descartável. E, portanto, sempre insuficiente e insatisfatório. E ai que medo de nossos filhos também caírem nessa categoria!

O problema é que estamos nos afastando da natural condição humana de imperfeição, da diferença enriquecedora, da busca confusa do bem viver familiar. E, no lugar dos afetos, exibimos nossa família em prateleiras – pais e filhos perfeitos, consumíveis, vendendo a falsa promessa de uma completude impossível de alcançarmos.

Uma pequena história de um avô que, como todo avô, um dia foi pai de crianças e, antes, criança, filho de um pai, ilustra bem essa mudança. Quando ele era criança, o peito do frango – ou seja, o melhor pedaço – ficava para seu pai, a pessoa mais importante da família. Depois que teve filhos, o peito do frango era dos filhos, agora alçados ao lugar principal. E, para ele, sempre a pior parte!

A história, ainda que divertida, já está até ultrapassada, pois já há alguns anos se vendem bandejas só de peito de frango, e orgânico ainda por cima! E tem mais: hoje o peito de frango já não é considerado lá essas coisas...

Essa “evolução” do peito de frango serve para ilustrar o quanto a atual geração de pais de crianças tem uma relação especial com o que lhe desagrada. A galinha agora parece ser  feita só do que se quer, peitos, coxas, só partes boas, ao gosto do freguês. É possível até supor que a parte que não gostamos, nem existe. Ficando assim todos igualados frente ao frango e a seus desejos.  Mas quando se trata de gente, que nós próprios criamos, não dá para partir em pedaços e colocar em bandejas. Vamos ter que lidar fatalmente com as partes difíceis de cada um, com o que não nos agrada, com o que temos dificuldade em aceitar.

Abandonar a fantasia da perfeição e retomar o sentido da continuidade. Criar ambientes solidários e amigos, onde o “dar errado” faz parte do plano, em que é possível não realizar todos os sonhos. Talvez não conseguir amamentar, talvez ter que fazer cesárea, talvez se irritar e dormir muito mal. Ser a mãe flexível de um filho que mordeu um amigo, que é tímido ou mais lento. Ter carinho pela mãe falível, que é uma mãe apenas humana, suficiente para criar seus pequenos como seres solidários, vivendo em harmonia com o mundo que habitam.

 

 Especializadas em crianças, as psicólogas Lulli Milman - que por 30 anos foi supervisora do curso de graduação em Psicologia da UERJ - e Julia Milman - mestre em Políticas Públicas e Formação Humana, e diretora-executiva da ONG Casa da Árvore - são mãe e filha, e escreveram juntas o livro A vida com crianças. Na coluna que leva o mesmo nome, as autoras buscam discutir temas recorrentes no cotidiano daqueles que cuidam e convivem com crianças.