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No aniversário de Mick Jagger, um trecho de "O sol & a lua & os Rolling Stones"

26 de Julho de 2017

Neste dia 26 de julho, a lenda viva do rock Mick Jagger completa 74 anos. Um dos músicos mais bem-sucedidos de todos os tempos, está há mais e 50 anos à frente da banda The Rolling Stones.

Para comemorar a data, selecionamos um trecho inédito do livro O sol & a lua & os Rolling Stones, de Rich Cohen, que será lançado em agosto. Neste trecho, Cohen narra um episódio que faz parte da fundação do rock’n’roll: o encontro predestinado de Mick Jagger e Keith Richards em uma plataforma de trem em 1961.

 

O trem de 8h28 para Londres

Dezessete de outubro de 1961. Mick Jagger estava na plataforma de trens que seguiam para a cidade na estação de Dartford, no subúrbio de Londres, esperando pelo trem das 8h28 para a cidade. Com dezoito anos e aluno da London School of Economics, ele estava atrasado para uma palestra sobre história das finanças. Keith Richards, aluno da Faculdade de Arte Sidcup, não lembra para onde estava indo. Ele conhecera Mick quando eram garotos em Dartford – uma cidade empoeirada famosa por seus manicômios e por uma fábrica de fogos de artifício que explodira –, mas tinham perdido contato. Keith reconheceu Mick primeiro. Ele tinha um olhar de homem de negócios, mas estava carregando discos. Era incomum ver um rapaz com um álbum, muito menos com uma pilha de discos. Keith foi até ele:

– O que você tem aí?

Posteriormente, ele disse que foi a primeira vez que viu um disco de Muddy Waters. Antes disso, o bluesman fora uma espécie de lenda, sobre a qual se falava como os índios um dia falaram de um grande rio além do horizonte. Mick também tinha discos de Little Walter e Chuck Berry. Todos eram do mesmo selo: Chess Records. O nome ressoava da distante Chicago, a estranha cidade onde fazendeiros do Mississippi se conectavam com uma corrente urbana. Quando o trem chegou, Keith e Mick se sentaram juntos e conversaram durante toda a viagem até a cidade.

Como se trata de uma lenda, os detalhes variam. Em uma versão, Keith usa um lenço e Mick veste um blazer. Em outra, Keith veste um sobretudo militar que se arrasta na plataforma. Em uma terceira, ele carrega uma guitarra. O inventário de Mick também muda. Às vezes, é Rockin’ at the Hops, de Chuck Berry, e Muddy Waters at Newport. Às vezes, é The Best of Muddy Waters e One Dozen Berries, de Chuck. Mas os detalhes cruciais permenecem os mesmos. Sempre é a Chess Records – porque a Chess lançava o tipo de blues elétrico que Mick e Keith amavam. (Jagger começara a encomendar discos do selo alguns meses antes.) É sempre a plataforma de trens, no lado em direção à cidade, o que pode ser interpretado literalmente – Mick estava atrasado para a aula – ou metaforicamente, como um padre lê a Bíblia. Apesar de não saberem, Jagger e Richards estavam seguindo para a cidade – ou seja, o estrelato. E estavam indo juntos. É perfeito que tenham se encontrado em uma plataforma de trens, pois o trem sempre teve grande importância simbólica para o blues. O trem é a escapatória – ele transporta o fazendeiro do Delta do território dos escravos para a metrópole. O trem é liberdade, poder. É por isso que, quando escuta as grandes canções antigas do blues, você quase sempre ouve rodas de aço no ritmo da música.

Em todas as versões, Mick é quem tem os discos, enquanto Keith tem apenas uma guitarra. Porque discos são equivalentes a riqueza. Mick a tinha. Keith não. Keith tocava rock’n’roll pelas mesmas razões que Chuck Berry – porque ele amava e porque não havia nada mais que pudesse fazer. Mas Mick tinha opções, estava a caminho de uma vida confortável quando esbarrou com Keith. É por isso que Keith sempre questionaria o comprometimento de Mick. Mick amava o blues à maneira de um garoto rico: como um hobby. Keith amava o blues como um homem doente ama penicilina. Era sua melhor esperança.

 

FOI UM MOMENTO de ouro do rock’n’roll – alguns pensam que nunca ficou melhor. Elvis mudara o mundo em 1956 com o lançamento de “Heartbreak Hotel”. Praticamente todo músico importante do rock britânico dos anos 60 e 70 se lembra de ficar deitado na cama ouvindo a Rádio das Forças Armadas enquanto o Rei iluminava a noite. Era tanto o estilo quanto qualquer outra coisa: a produção simples, o tremor no vocal, a guitarra metálica. O vazio entre as notas trazia à vida as estradas do campo do Novo Mundo. Empresários ingleses do showbiz faturaram com imitações: Tommy Steele, Adam Faith. Presleys britânicos pegando carona em uma febre por tudo que era americano, não apenas a música mas também as roupas, o dialeto. O que levanta a grande pergunta: Por quê? Por que a música suja americana, música de garotos pobres, tão idiossincrática e única à experiência americana, uma música que vinha da mistura proibida entre branco e negro, mulato e oitavão, uma música que combinava as tradições mais antigas do country com o mais profundo blues do Delta, uma música que conta a história da nação – dos navios negreiros à guerra civil à grande migração às fábricas no enfumaçado Meio-Oeste –, encontrou um terreno tão fértil na Inglaterra?

Se você perguntar a pessoas que viveram durante aquele período, que tinham dez ou quinze anos quando Elvis estourou, elas descrevem o mesmo quadro: a Inglaterra depois da Segunda Guerra Mundial, supostamente vitoriosa mas vivenciando uma espécie de ruína. O país estava falido, o Império estava sendo desmantelado. Adeus, Índia. Adeus, baía de Mandalay. Era apenas aquela ilha desolada, onde começou, onde terminaria. O racionamento do período da guerra continuava na metade da década de 50. Durante a primeira turnê dos Beatles nos Estados Unidos, um repóter perguntou a George Harrison se ele tivera um toca-discos quando estava crescendo.

– Um toca-discos? – Harrison disse, incrédulo. – Não tínhamos açúcar!

Keith, mais tarde, falou sobre quando zombou dos alemães durante uma apresentação no início da carreira em Munique:

– É por causa de vocês que temos dentes ruins… nada de laranjas!

Imundície, podridão, dissipação, sombras cinzentas em paredes quebradas. Ingleses que tinham crescido depois da guerra comparam sua juventude a um filme em preto e branco. Sem vibração, sem calor. A chegada do rock’n’roll era Technicolor. Rosa chiclete! Azul claro! Ninguém jamais se importou mais com a música do que aquela primeira geração, para quem ela era brilho e vida, uma oportunidade de diversão, uma fuga da história – os Estados Unidos como somente um garoto triste poderia sonhá-los.

– Houvera uma guerra gigantesca – contou-me Ethan Russell, um fotógrafo oficial dos Stones nos anos 60. – A civilização ocidental estava em frangalhos. A Inglaterra estava destruída. Keith Richards era um garoto, morando em um casebre em uma rua bombardeada em Dartford. Mas ele estava ouvindo Chuck Berry. Uma das minhas fotos favoritas é a de Keith fazendo o passo do pato de Chuck Berry naquela rua! Ele tem quatorze anos, mas já está fora dali!

O primeiro resplendor do rock’n’roll já tinha passado quando Keith abordou Mick na plataforma da estação de trem. Parte disso era apenas o ciclo normal.

– É uma progressão de cinco anos – Neil Sedaka contou-me. – Os Everly Brothers tiveram cinco anos de músicas de sucesso. Connie Francis, cinco anos. Fats Domino e Brenda Lee, cinco anos. Todos aqueles artistas que estouraram na década de 50 estavam acabados quando os Beatles e os Stones atingiram a maturidade.

Parte disso foi uma sequência de contratempos e acidentes. Elvis entrou para o exército em 958. Ele sairia em 960, mas jamais seria o mesmo – o serviço militar o refreou, eliminou aquela eletricidade do blues. Jerry Lee Lewis casou com sua prima de treze anos, o que o tirou do jogo. Chuck Berry foi preso por violar o Ato de Mann. Little Richard, o mais afetado e exagerado dos primeiros astros, teve uma visão que o convenceu de que estava correndo o risco de perder a vida eterna.

– Se você quer viver com o Senhor, não pode tocar rock’n’roll – ele explicou. – Deus não gosta disso.

Isso aconteceu em um voo na Austrália. Um motor pegou fogo, o avião estremeceu. Little Richard ajoelhou-se – e suas calças roxas não se enrugaram, tampouco seu lenço rosa se amarrotou – e implorou a Deus, prometendo que, se sua vida fosse poupada, ele se dedicaria ao gospel. Ele jogou seus anéis no porto de Sydney alguns dias depois, voltou para o Alabama e entrou para a Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Em 1963, as paradas de sucesso estavam repletas de música pop bubblegum. “Hey Paula”, de Paul & Paula. “I’m Leaving It Up to You”, de Dale & Grace. Foi quando muitos ingleses encontraram o caminho que os levou ao blues. Era um refúgio, um lugar para escapar das privações do rádio. O blues era real. Garotos como Jagger e Richards começaram a curtir blues pela mesma razão que os garotos da minha geração passaram a curtir Public Enemy e NWA. O que importava era a autenticidade. No começo, ouviam qualquer coisa que conseguissem encontrar. Com o tempo, as estrelas polares emergiram. Muddy Waters. Chuck Berry. Jimmy Reed. O blues do Delta tornou-se uma obsessão indistinguível da fé. Para os Stones, era uma religião. Nisso, eles foram afortunados. Um artista precisa de uma crença. Não importa que tal crença seja o rastafarianismo ou o comunismo. É a estrutura da crença que importa – ela dá coerência e forma ao trabalho. Ela está lá mesmo quando você não se dá conta. É claro, os Stones fizeram alguns discos horríveis, mas o blues sempre os salvou no final.

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