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"Nietzsche na Itália": resenha de Elias Thomé Saliba para O Estado de S. Paulo

07 de Agosto de 2014

'Nietzsche na Itália', de Paolo D'Iorio, relata o período que representou virada radical na trajetória do filósofo.

Foi uma pena que Torna a Sorriento, a típica canção napolitana, só tenha vindo a público em 1902, dois anos após a morte de Friedrich Nietzsche. Pois é bem provável que o filósofo gostaria não apenas de ouvi-la, mas até mesmo de acompanhá-la, cantarolando baixinho, para relembrar sua primeira viagem à Itália no outono de 1876. A estada representou uma autêntica virada na trajetória intelectual de Nietzsche, já que foi no cenário de Sorrento que ele abandonou a ideia de renovar a cultura alemã a partir do ufanismo de Wagner, iniciou a escrita de Humano, Demasiado Humano e adotou definitivamente o aforismo com forma de expressão filosófica. 

 Este é o tema de Paolo D’Iorio em Nietzsche na Itália, uma inusitada mistura de biografia, relato de viagem e interpretação filosófica. Nietzsche viajou a convite de sua amiga Malwida von Meysenburg, que não apenas organizou a viagem como convidou outros amigos do filósofo, como Paul Rée e Albert Bremmer para participarem da excursão. O grupo de amigos, juntamente com Trina, a camareira de Malwida, instalou-se numa pensãozinha, a Villa Rubinacci, um pouco distante da aldeia de pescadores de Sorrento. A narrativa de D’Iorio é permeada de detalhes pitorescos, extraídos tanto das cartas dos amigos quanto das preciosas anotações que o próprio Nietzsche deixou em suas Cadernetas Sorrentinas.

 Como outros de seus ilustres visitantes no passado, como Giacomo Casanova (em 1771, seguindo um dos seus amores) ou Alexis de Tocqueville, em 1851, Nietzsche encantou-se durante os meses que passou em Sorrento. Dom Federico (assim lhe chamavam os habitantes locais) e seu grupo passeavam a pé, quase todos os dias, pelas colinas, prainhas e pelos bosques de laranjeiras e oliveiras. Almoçavam perto do mar, saboreando ostras fresquíssimas acompanhadas de Asti Spumante e à noite os serões eram marcados por uma animada competição de aforismos. (Muitos deles aparecerão nas obras posteriores de Nietzsche.)

  

Basel HartmannFilósofo em 1873

 

 “Eu jamais vi Friedrich tão animado. Ele ria de alegria”, escreveu Malwida. Mas além dos olhos de turista, o olhar do filósofo realizava uma original transfiguração dos cenários visitados, registrando cada cenário ou evento – raríssimos instantes de curtos-circuitos mentais nos quais o filósofo vê simultaneamente as teorias filosóficas, as experiências da infância e as imagens literárias do passado e do presente. A reconstrução de D’Iorio é tanto mais original porque tais elementos não aparecem nas obras publicadas, mas apenas nos papéis privados do filósofo.

 Em Nápoles, a pretexto de um consulta ao oftalmologista, Nietzsche aproveita para conhecer o carnaval. Mas eis que, naquele exato momento, o filósofo também percebe, numa ruela próxima, a passagem de um pomposo cortejo fúnebre. A imagem do carnaval mesclada com o cortejo será transfigurada por Nietzsche numa perspectiva histórica: a progressiva libertação da humanidade ante o sombrio ritual católico.

 Da sacada da Villa Rubinacci, Nietzsche contemplava todas as tardes, ao longe, no meio do mar, entre o Vesúvio e Capri, a silhueta escarpada da ilha de Ischia. Esta imagem se mistura com elementos das primeiras leituras do filósofo como a imagem da criança que via nas linhas do horizonte a proteção de uma redoma de vidro. O filósofo utilizará a epifania desta imagem para expressar sua doutrina da inocência do devir, comparando-a a uma redoma celeste que protege a vida contra as interpretações errôneas e nocivas da metafísica e da teleologia. A redoma celeste da imanência nos tranquiliza e nos devolve a serenidade de quem sabe que não existe nada fora de nosso mundo terrestre: nenhuma dimensão metafísica, nem a providência cristã, nem a racionalidade hegeliana, nem uma tendência moral ou biológica, como adiantavam então os maiores filósofos da época. Na mente do filósofo, a imagem da redoma se junta ao pitoresco da anedota, na versão dos pescadores locais: “Se você quer fazer Deus rir, conte a ele os seus planos de futuro”.

 Talvez tenha sido naquele cenário ensolarado de Sorrento, onde tudo era aparente e ostensivo que o filósofo tenha percebido que não há nenhum plano determinado para os arranjos do mundo existente, nem um curso definido para a ação. Há um todo, mas ele é aberto, há o homem mas ele é para sempre incompleto, há o tempo mas ele não comanda as mudanças, antes caminha no sentido inverso delas.

 Nos registros das cadernetas sorrentinas, Nietzsche observa um bufão napolitano que se coloca, em trânsito burlesco, na pele de um outro e de si mesmo. Seria mais um inspiração para afirmar que era preciso que a Filosofia visse a si mesma, transformando-se numa disciplina experimental, perspectivística, que consistia em demolir qualquer concepção estável ou fechada e manter a mente sempre desprendida, em movimento, “olhando ora por esta janela, ora por aquela”. “Eu sempre rio de todo mundo que não riu de si também.” Esse dístico, estampado depois em A Gaia Ciência mostra que ao fardão de filósofo, Nietzsche preferia o gorro do bufão, porque, se o filósofo erra, o bufão ri das verdades. Coisa difícil para a boa e hospitaleira Malwida entender. Mais ainda para a irmã do filósofo, Elisabeth, teutônica e carola, que cometeria o equívoco de enterrar Nietzsche – depois de um belo funeral cristão – junto à igreja de Rocken, onde ele nascera. Ele, com certeza, estaria mais feliz sepultado em Sorrento, em Ischia ou em outra ilha qualquer. Vulcânica, de preferência. 

 Elias Thomé Saliba é professor da usp, autor de Raízes do riso e membro da associação internacional de  historiadores do humor.

 (Originalmente publicado em O Estado de S. Paulo, dia 19/07/2014)

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