Entrevista com a autora
O assunto é complicado, mas Suzana Herculano-Houzel faz tudo parecer muito fácil. A neurocientista carioca explica o funcionamento do cérebro de forma tão simples e divertida que vem atraindo um público cada vez maior para a área. É por isso que Suzana foi convidada para coordenar a coleção
Ciência da Vida Comum, que a Zahar inaugurou este ano. Seu novo livro,
Por que o bocejo é contagioso?, foi um dos que abriu a coleção e acaba de chegar às livrarias. Na publicação, ela explica curiosidades cotidianas comandadas pelo cérebro, como, por exemplo, a razão de gostarmos tanto de comer chocolate. Na entrevista abaixo, analisa o crescimento da neurociência no Brasil e explica o segredo do seu sucesso: “A ciência do cotidiano é muito rica, cheia de curiosidades, um caminho fácil e prazeroso para cativar o grande público”, afirma.
Como foi receber o convite para coordenar a coleção Ciência da Vida Comum da Zahar? Acha que há um público grande e pouco material sobre ciência do cotidiano hoje disponível no mercado brasileiro?
A ciência do cotidiano é muito rica, cheia de curiosidades, um caminho fácil e prazeroso para cativar o grande público e formar leitores de divulgação científica, mas conta com poucos títulos no Brasil. O convite para coordenar a coleção
Ciência da Vida Comum surgiu quando eu propus à Zahar, para quem eu vinha elaborando alguns pareceres sobre livros, recomendar regularmente livros de divulgação científica para seu catálogo, dentre os muitos que eu leio habitualmente. Descobrimos uma paixão em comum: o livro
A evolução das coisas úteis, de Henry Petroski, na época, inédito no país. Ele logo se tornou ponto de partida dessa coleção, que tem por fio condutor a ciência da vida comum, sempre apresentada em linguagem leve e ágil, para satisfazer à curiosidade natural que temos sobre nós mesmos.
Sobre o seu novo livro, Por que o bocejo é contagioso?,conhecer mecanismos do cérebro serve penas como curiosidade ou você pode trabalhar para amenizar alguns efeitos. No livro, por exemplo, está explicada a razão de os mais introspectivos se intimidarem frente a pessoas desconhecidas. Conhecer a razão é o primeiro passo para amenizar este efeito?
Por que o bocejo é contagioso? é um convite à curiosidade do leitor. Desde sua capa, aliás, que faz qualquer um bocejar e se perguntar por que isso acontece! Essa curiosidade, no entanto, é apenas a porta de entrada para que o leitor descubra um lado até então desconhecido da sua natureza: como o funcionamento do cérebro faz de nós o que somos. Esse conhecimento, transmitido em pílulas centradas em perguntas pontuais sobre curiosidades do cotidiano, é um grande ponto de partida para mudarmos nossas vidas: entendermos melhor nossas relações sociais, nossas motivações, desejos e pensamentos.
Você já ministrou cursos para professores sobre a forma como o cérebro dos alunos funciona. Neste caso, a ciência é muito mais do que simples curiosidades. Você pode conseguir um melhor desempenho dos alunos com este tipo de conhecimento?
A curiosidade é sempre uma maneira interessante de conquistar a atenção do leitor, mas meu objetivo é sempre transmitir informações sobre o funcionamento do cérebro para que as pessoas possam usá-las da melhor maneira possível em suas vidas. Encontrar uma aplicação prática para esses conhecimentos é particularmente fácil e, ao mesmo tempo,
importante. Para os professores, a neurociência tem muito a ensinar sobre o processo de aprendizado, a memória, a motivação, o desenvolvimento das habilidades cognitivas, as diferenças individuais e as relações humanas, temas de grande conseqüência para o ensino. Entender como funcionamos torna muito mais fácil melhorar nosso desempenho e qualidade de vida.
Toda a sua especialização em neurociência foi feita fora do país. Qual a situação desta área hoje no Brasil?
A especialização em neurociência ocorre na pós-graduação e cursos formais de pós-graduação em neurociência começam a surgir agora no país, por exemplo, no Instituto de Ciências Biomédicas, na UFRJ. É uma área em franco crescimento. O número de livros de divulgação científica dedicados ao assunto cresce espantosamente, sobretudo em inglês. Mas é uma satisfação enorme descobrir que o público brasileiro tem um interesse muito grande no assunto e acolhe com avidez os títulos, cada vez mais numerosos, publicados por especialistas brasileiros.
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