Flash Intro

Cartas do front
relatos emocionantes da vida
na guerra
Entrevista com andrew carrol

Editor de Cartas do Front: Relatos emocionantes da vida na  guerra

1 – Qual o significado do título Cartas do Front?
Queria enfatizar que estas cartas são bastante sinceras e reveladoras com relação ao conflito armado e, em condições ideais, proporcionam aos leitores uma noção clara do que realmente ocorre na frente de batalha. Elas abrangem toda a intensidade de emoções, e como tantas destas cartas foram escritas em circunstâncias de vida e morte, a honestidade e instantaneidade presente nelas é muito impressionante. Para escrever o livro, tive que ir a locais no mundo onde os confrontos eram constantes como Bagdá e Cabul.

2 – Como foi sua passagem pelo Iraque?
Não participei de nenhuma missão, e o momento mais assustador ocorreu quando eu já deixava o país. O avião bem na frente do nosso foi atingido por um míssil superfície-ar (milagrosamente, ele conseguiu pousar a salvo), porém, não tínhamos certeza se os insurgentes tinham fugido ou contando ganhar vantagem a cada disparo acertariam nosso jato em seguida. Os dez minutos após a decolagem quando sobrevoamos o Iraque foram os momentos mais aterrorizadores de minha vida. O perigo nem se comparava ao que nossas tropas enfrentam diariamente, mas para este escritor não acostumado com a ação, foi o suficiente. Apesar disso, agora eu gostaria de voltar.

3 – E no Afeganistão?
No Afeganistão, na verdade, foi ainda mais assustador porque fui por conta própria e uma bomba explodiu do lado de fora do meu hotel em Cabul poucos dias antes da minha chegada. O Talibã e a Al-Qaeda anunciaram um novo esforço de matar ocidentais, e se comentava que o hotel seria atingido mais uma vez. Quando soube do ataque liguei para saber se eles ainda aceitavam hóspedes ou planejavam fechar por um tempo. Um recepcionista me respondeu de forma animadora, “Tá tudo bem por aqui. Pode vir! Traga dinheiro!” Acabei passando o Dia de Ação de Graças lá, e foi uma experiência inesquecível.

4 – Qual o seu principal interesse nas cartas de outros países?
A inspiração de incluir cartas estrangeiras em Cartas do Front, além das norte-americanas partiu dos veteranos e das tropas aqui nos Estados Unidos. Após a publicação do War Letters, viajei durante dois anos pelo país para conversar com militares em serviço e aposentados, e eles achavam que as cartas de outros países aprofundariam nosso entendimento da própria guerra. Muitos dos veteranos também se entusiasmam com a história e para eles estas cartas ofereceriam uma nova perspectiva sobre as batalhas e eventos familiares. Ao observar nossas próprias tropas durante as gerações, percebe-se como elas estão interligadas com outras nações – poloneses como Kosciuszko vieram para cá para servir na Revolução, imigrantes de tantos países diferentes lutaram em nossa Guerra Civil, e até mesmo no exército hoje em dia quase um entre trinta soldados nasceu fora do país. O mundo está muito mais interligado do que percebemos em geral.

5 – Por que você decidiu viajar pelo mundo em busca destas cartas?
Eu poderia provavelmente ter ficado em casa e pedido para veteranos e arquivos estrangeiros me enviarem as cartas de guerra, mas eu sabia que encontrá-las seria essencial a este livro. E ainda mais importante, pensei que as pessoas ficariam mais dispostas em compartilhar suas cartas comigo se eu as visitasse pessoalmente em seus países.

6 – O que mais te surpreendeu em sua viagem?
Quando comecei a viagem, os protestos e manifestações antiamericanos estouravam em todo o mundo. Amigos meus viajados me aconselharam a esperar encontrar indiferença e, até mesmo, hostilidade em alguns países. Mas aconteceu o contrário. Por toda parte – no Oriente Médio, na antiga União Soviética, nos Bálcãs, na Alemanha, no Japão, no Vietnã etc. as pessoas faziam de tudo para serem prestativas e me dar cópias de suas cartas. Não posso expressar completamente como foi doloroso para algumas pessoas falar de suas experiências – seja durante a Segunda Guerra Mundial há sessenta anos ou no Iraque há apenas seis semanas – mas todos estavam dispostos a compartilhar estas histórias incríveis.

7 – As cartas no livro são muito pessoais. Por que você acha que as pessoas te deixaram usá-las?
Muitas delas são extremamente pessoais, contém rejeições de antigas namoradas, relatos emocionantes de tropas que por pouco não saíram vivas de uma batalha, cartas daqueles que perderam alguém que amavam e correspondência do período pós-guerra que falavam sobre os abalos físicos e psicológicos do confronto. Os veteranos de combate que conheci, em particular, contaram que revelavam estas cartas para que as gerações mais jovens pudessem melhor compreender as realidades da guerra. Estes veteranos não se consideram pacifistas e têm orgulho de ter servido nas Forças Armadas, mas achavam que o conflito armado nunca deveria ser romantizado. Eles me falaram disso muitas vezes.

8 – Qual a diferença entre Cartas no Front e seu último livro War Letters?
Acho que os dois se complementam, apesar de bem diferentes. Cartas no Front é mais abrangente, trata de todos os grandes conflitos na nossa história, da Revolução – na verdade, temos até mesmo uma carta da Guerra Franco-Indígena – até o combate no Iraque. Em segundo, acho que este é um livro mais intenso. Não tenho certeza do porquê, mas durante os últimos anos as pessoas me mostraram cartas que, no geral, são mais dramáticas do que tudo o que já li. War Letters é mais uma análise da própria guerra e do seu impacto sobre os que lutaram nela e suas famílias do que propriamente um livro de guerra. Eu diria que ambos os livros são uma homenagem aos homens e mulheres que lutaram pela liberdade, e ambos são uma lembrança nítida do sacrifício que estes indivíduos fizeram – e continuam a fazer.

9 – Por que um capítulo sobre cartas cômicas?
As tropas escrevem muitas cartas engraçadas, até mesmo no calor da batalha, é a forma deles enfrentarem isso. E algumas das correspondências não são intencionalmente cômicas, como a do homem que queria se livrar do serviço militar na Segunda Guerra Mundial e escreveu para a Junta de Recrutamento relatando suas enfermidades, que incluíam todas as doenças possíveis e conhecidas.

10 – Como a forma de escrever cartas mudou com o passar dos anos, principalmente agora que as tropas têm acesso ao e-mail?
Acho correto dizer que agora mais tropas escrevem por e-mail do que à mão, mas fiquei até bastante surpreso ao ver que muitos preferem escrever no papel mensagens especialmente significativas. Uma das cartas mais tocantes no livro é de um soldado chamado Josh Harapko que, segundo sua mãe, era conhecido por redigir mal suas cartas e ainda mais reticente em revelar suas emoções. Antes da Operação Anaconda no Afeganistão, ele passou um tempo escrevendo para a mãe uma carta final do tipo “se eu morrer” expressando o quanto a amava. Em uma terrível ironia, Harapko sobreviveu a Anaconda, voltou para casa são e salvo e depois morreu em uma missão de treinamento de rotina aqui nos Estados Unidos. Não é necessário dizer o apego que a mãe tem por esta carta mais do que por qualquer outra coisa no mundo.


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